Eu sou sim a pessoa que some, que surta, que vai embora, que aparece do nada, que fica porque quer, que odeia a falta de oxigênio das obrigações, que encurta uma conversa besta, que estende um bom drama, que diz o que ninguém espera e salva uma noite, que estraga uma semana só pelo prazer de ser má e tirar as correntes da cobrança do meu peito. Que acha todo mundo meio feio, meio bobo, meio burro, meio perdido, meio sem alma, meio de plástico, meia bomba. E espera impaciente ser salva por uma metade meio interessante que me tire finalmente essa sensação de perna manca quando ando sozinha por aí, maldizendo a tudo e a todos. Eu só queria ser legal, ser boa, ser leve. Mas dá realmente pra ser assim?
Medo de se apaixonar
outubro 28, 2011Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. . Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.
Fabrício Carpinejar
outubro 15, 2011
”Café?”
“O que?”
“Café.”
“Morno?”
“Escaldante, por favor.”
“Fraco?”
“Forte, potencialmente.”
“Você tem um gosto meio estranho para uma menina tão nova.”
“Já me disseram. Amargo.”
“O que disse?”
“Quero amargo, também.”
“Você gosta assim?”
“É pra dar aquela chacoalhada no estômago. Ver se o amargo acaba adocicando a vida; ver se a escaldação esquenta toda essa frieza.”
“Sinto rancor aí.”
“Sorte sua, moço.”
“Por que sorte?”
“Pelo menos você sente alguma coisa.”
“E você não? Nada?”
“Sinto frio, agora.”
“Só?”
“É, acho que sim.”
“Posso lhe oferecer um casaco?”
“Não, obrigada.”
“Gosta do frio?”
“O problema não é o clima.”
“E qual é, então?”
“Sou eu, moço.”
julho 20, 2011
Fico pensando, incansavelmente, sobre como chegamos até aqui. E sempre do mesmo jeito, me pego imaginando como teria sido diferente se eu tivesse me permitido mais. Logo eu, que supliquei por tanto tempo, aquela vontade de ter ao meu lado o que sempre pareceu tão impossível.
Grito meu amor a todos os cantos do mundo, mas o que fazer quando tudo o que resta é um vazio? Meus passos atrás de ti já desgastaram a sola do sapato. E fico tonta, por dar voltas no mesmo lugar.
Sabe, sempre escondi em mim um sentimento que achava que nunca poderia sentir. Fazia de conta que não era possível amar alguém mais do que a mim mesma. Abusava do egoísmo, por saber que no fim, só restaria eu mesma ali.
Mas sei que quero muitas coisas. E, meu deus, sempre quero demais. E quando queremos e não podemos, só nos resta lamentar, mesmo. Choramingar o tempo perdido, aquele momento em que simplesmente não nos demos conta do que era certo.
Fracassei, mais uma vez. Perdi, como sempre perco. Mas abri meus olhos. Hoje sei, finalmente, o que realmente faz meu coração bater. E se meus passos me levam a lugar nenhum, espero que você venha caminhar para lugar nenhum comigo.
Não é amor…
abril 21, 2011RJ-SP-RS
abril 2, 2011Não éramos o casal perfeito. Tínhamos lá nossos defeitos.
De qualquer forma, comíamos chocolate mergulhados somente em nossa própria companhia nas segundas-feiras. Ele repartia meu cabelo com a ponta dos dedos e afastava minha franja do rosto. Eu, como resposta, torceria o nariz ou ainda mostraria a língua. Então ele riria da minha infantilidade. Depois sairia para beber com uns amigos e perguntaria se eu gostaria de ir junto. Minha resposta negativa seria questionada: mas como assim você não gosta de cerveja? “Pois é, não gosto, você sabe que não”. “A gente pede uísque.” “Também não quero. Divirta-se, feio.” “Ok, chata.”
Mas não dava tempo nem de sentir falta. Ele voltava uns minutos depois com uma garrafa de vinho. Daquele meu favorito. Sorria, aquele tipo de sorriso que tava vontade de sorrir junto. E diria com um suspiro que não preferiu eu aos amigos. Então bebíamos e eu derramaria em sua camisa branca. Então sua face teria aquela expressão que eu tanto odiava e eu ganharia olhares tortos pelo resto da noite. No dia seguinte, eu consertaria meus pecados com abracinhos, beijinhos, carinhos, tudo assim: pequenininho que nem eu.
Brigávamos bastante também. Ele tinha ciúmes do meu melhor amigo e do seu sotaque gaúcho. Ele nunca disse exatamente isso, mas era evidente.
O que ele não fazia idéia é que o Rio de Janeiro também tinha seus encantos sobre mim. Se a cidade é maravilhosa eu nunca soube, mas meu menino tinha todas as sete maravilhas do mundo em si. Ele sabia disso, tão orgulhoso que era. E eu, ah, a orgulhosa, não lhe dizia o quanto ele me fazia bem. Na minha cabeça, era claro como o tal Sol no Rio. Mas parece que ele vivia aqui nas nuvens de São Paulo, sempre se sentindo tão deixado em segundo plano. Ele mal sabe que meu único plano é ficar com ele. Mesmo assim, continuava ali, cara de chuva, cabeça nas nuvens.
Nas nuvens que sempre foram nosso limite. Explorávamos o céu e o inferno pela boca um do outro. Ele recitava poesias para mim, que depois eu descobriria que eram de sua autoria e me derreteria mais ainda. Já eu? Ah, eu nos desenhava de mãos dadas com giz de cera e colava com ímãs de joaninha na porta da geladeira. Depois, embaixo, reconheceria as letras em sua caligrafia torta: “Meu nariz é maior, boba”. Sempre boba. Nunca chata. Chata era para despedidas.
Eu também não era perfeita. Tinha lá meus muitos defeitos.
Esta mania de comer chocolate, por exemplo. Faltar, com prazer, em todos os compromissos. Falta de interesse, às vezes de cultura. Meu vício incurável em música e em discordar. De vez em quando, meu nome do meio virava Melancolia. E eu falava demais nos cinemas.
Ele seguia o mesmo padrão: sempre se mostrava indiferente a mim em brigas. Deixava a toalha em cima da cama todo santo dia, não sabia dividir e criticava minha cantora favorita. Tinha as unhas muito compridas e o cabelo muito curto. E era cinéfilo.
E é isso que eu tento dizer: tem vezes que a química, física e biologia é tanta que até mesmo os defeitos se encaixam. Ele se irritava com meu falatório durante sua paixão, mas também dizia que deixava o filme mais interessante, de algum modo. Meus comentários sobre as roupas dos atores sempre faziam dos dramas comédia.
Talvez fossemos o casal perfeito justamente por esperar não o ser. Como tínhamos em mente que perfeição não era um objetivo, não nos assustávamos ao ver qualquer coisinha que não se encaixava. Despreocupados, o encaixe vinha sozinho. E é sempre assim. Isso que é o estranho da suposta perfeição. Ou, como ele diria, o ixtranho.
Zora Bie
março 6, 2011
Somos todos cheios dessa substancia magnética que te prende a alguém, é essa pessoa que te faz exprimir sorrisos, e essa sensação vivida que faz seu interior gritar em um ponto que ele não determina o que sente sem um auxilio maior, essa pessoa torna-se parte de você e mesmo que você queira a deixar, o seu coração vai negar isso com as forças que lhe forem dispostas até seu sentimento de aniquilar seu brilho interior se dissipar, outras cores aparecem, a estação muda, e com ela as borboletas libertam-se da sua membrana anterior e tudo, absolutamente tudo faz o brilho do sol ser bonito em sua totalidade e euforia.
Vermelho, branco. Amarelo.
fevereiro 14, 2011Você foi como um avião cortando, rasgando, dilacerando o céu noturno.
Eu que na minha hiperatividade e mania de mexer os pés, andava sempre para baixo, com os olhos como que grudados no chão. Uma atividade bem agradável, essa de olhar para baixo. As pessoas deixam cada coisa por onde passam… Inimaginável. Toda essa atenção não me impediu nunca de tropeçar uma quantidade de vezes ainda assim acima da média. E, todavia, não consegui evitar te notar. Mesmo cabisbaixa, distraída e entretida. Você foi maior.
Brilhava, e como brilhava! Mesmo que contrastada com Júpiter ou qualquer uma das daquelas estrelas enormes que esqueci o nome — minha distração só aumentava quando se diz de astronomia (ou logia), desculpe-me — e intensamente brancas, brilhava. E chamaria mais atenção que o Sol. Pois você era tão gritante e simultaneamente tão comum… Ora, um avião!
A noite em qual você surgiu era linda. Todos os astros brilhavam como se o próprio Jesus tivesse nascido naquela noite. Até um marinheiro mais desorientado que eu acharia facilmente o caminho para casa. De qualquer forma, você não era parte daquilo… Não era natural.
Piscava.
Vermelho, branco. Amarelo.
Você arrancou, com força inseparável, a vida do céu. Deixou somente um rastro tricolor que tirava, também sem pena, do negro sua essência. E ia. E ia e ia e ia. Eu sempre soube que você ia evaporar conforme o passar do tempo. Natural — diferente de você —, já que eu era apenas uma cidade de passagem. Chego até a perguntar a mim mesma — coisa que eu faço freqüentemente! Eu e meus velhos costumes… — se meu nome foi anunciado em seu sistema. Acredito fielmente que não. Ora, eu! Nunca fui nenhuma Nova Iorque ou Amsterdã.
Onde eu estava? Ah, pois sim. Você ia. Talvez, se eu fizesse um sinal de fumaça, você aterrissasse. Se eu houvesse mandado sinais por rádio, eu faria você ficar. Porém não mandei. Só observei pois sabia que era só uma noite de Lua cheia a mais em meu calendário.
Isso nunca foi sobre você.
É sobre lamber os dedos na ânsia de arrancar de lá o cheiro fétido de qualquer coisa que não se chame pecado.
É sobre meus tênis já sujos e depredados, herança de anteriores amores.
Também se trata dos meus dedos que teimo em mexer, estalar e morder. É sobre não ligar para esse hábito que só me machuca.
Fala também do fato de eu ter me distraído de minha distração e, por sorte ou azar — sempre tive mais do último —, ter um segundo para reparar no céu e três minutos para te observar voar.
Pode ser que eu não ache um objeto que forneça luzes tão belas quanto as suas. Há a possibilidade de eu contratar seja-lá-que-especialista só para te projetar novamente para mim. Talvez eu sempre lembre de você. Quiçá eu continue sempre procurando, no chão, a Lua tão amarelada que te banhou naquela noite. Vai saber! Deixam cada coisa no chão, pequena…
Mas, apesar de tudo, eu ainda tenho pés para me distrair e um chão para te procurar, em restos de solas de sapato.
Zora Bie
Porto Seguro.
fevereiro 8, 2011Você precisa descobrir o novo, ter novos experimentos, novas efeitos sobre você mesmo para que tenha confiança que adora exatamente a friagem interior que sente em saltar de uma cordilheira inundada por sensações te traz. Ter conhecimento que ainda que o medo invada suas veias é ali que seu coração trabalha mais veloz, e que no término vai te extrair de você um sorriso em seu semblante. Mas existe expectativa, e a desígnio na existência verdadeira. Acreditar no que sente não é tão simples assim, pois, você não pode espontaneamente ir embora à ocasião que desejar ou mudar de passatempo quando meramente apetecer a conhecer outro. E é isso qual arranja em desordem tornando difícil escolher. A insegurança sobre aguardar, e a confiança na sua escolha se ela será válida.
Sobre o vazio .
outubro 2, 2010Vazio não é a sensação de se sentir só. Vazio é estar rodeado de pessoas na busca de uma só.
Vazio não é ficar cego no meio de uma multidão. Vazio é olhar a todos na busca de um só rosto.
Vazio não é copiar poemas de livros. Vazio é escrever coisas sem sentido e frases impensáveis.
Vazio não é escrever prolixamente textos longos e tristes. Vazio é perder as palavras e criar um dicionário de significados para a palavra “solidão”.
Vazio não é contar 80 passos num shopping Center. Vazio é permanecer parado na busca de te ver passar.
Vazio não é a vontade de ligar 50 vezes ao dia. Vazio é o gaguejar ao dizer o primeiro “olá” pela manhã.
Vazio não é escrever sobre o vazio. Vazio é saber que essas palavras não serão lidas e, mesmo assim, buscar escrevê-las da melhor maneira possível.
Vazio é uma condição de incompreendido. É uma sensação de que todo o teu teclar de teclas nervosas é em vão. Vazio é ver os planos se desfazendo. Vazio é ver o sonho do “amanhã” tornando-se o pesadelo do “hoje”.
Vazio não é acordar e perguntar “onde está”. Vazio é abrir os olhos e dizer “foi um sonho”.
Vazio é o escrever de uma carta sem destinatária. Vazio é te escrever.


